Entregador em Moçambique: quanto ganhas e o que deves exigir
Entregador de app não tem piso por lei: o ganho é por tarefa. O valor de 21.000 MT/mês da Yango é anúncio. Exige contrato, comissão, seguro e bloqueio.

Um entregador em Moçambique — de mota ou de bicicleta — não tem piso salarial por lei: a relação é de prestação de serviços, e o rendimento é por tarefa.
A referência pública mais citada é o anúncio da Yango, que na página de recrutar entregadores promete até 21.000 MT por mês — um número de marketing, não um piso. O que se pode exigir já, com a lei de hoje (a Lei 13/2023), são 5 coisas concretas: contrato escrito, comissão transparente, critérios de bloqueio, equipamento e seguro.
Este guia responde às 2 perguntas do tema: quanto ganhas (o que é verificável e o que não é) e o que deves exigir antes de começar. Não há número de ganho garantido — há um intervalo que podes planear, e um conjunto de condições que podes impor.
Quanto ganhas: o verificável e o que não é
O único número público de ganho é o anúncio da Yango: até 21.000 MT/mês, na página de motoristas da app. É o número de recrutamento — descreve o potencial, não a realidade de quem começa. Não há estatística pública em Moçambique sobre o ganho médio do entregador, e qualquer que te dê um número "a média é X" está a inventar.
O ganho real depende, na prática, de 4 coisas: as horas trabalhadas, a zona (o centro paga mais, porque a densidade de pedidos é maior), a procura (a hora e o dia do pedido) e a comissão da plataforma. A comissão é a percentagem que fica no meio. É a combinação dessas 4 variáveis que decide se os 21.000 saem ou não no fim do mês.
Para planear, usa um exemplo — e não um facto: 8 horas por dia, 12 entregas ao dia, 80 MT por entrega, 22 dias. Dá cerca de 21.000 MT brutos por mês, antes da comissão e do combustível. É a aritmética que deves fazer com os teus números, não a promessa que a app faz.

Mota ou bicicleta: o custo que ninguém te diz
A escolha do meio muda o ganho líquido, e a diferença está nos custos fixos. A mota tem o custo de combustível, manutenção, capacete e, se estiver em crédito, a prestação — cada prestação come o ganho do dia. A bicicleta tem o custo do esforço físico e a capacidade de carga, que limita o volume de pedidos por hora.
O teste antes de começar: põe em 2 colunas. De um lado, o ganho bruto por dia que esperas. Do outro, o combustível, a manutenção, o seguro, a prestação (se houver) e as horas de paragem. A diferença é o teu ganho real — e é a ele que deves comparar com o piso do sector, para saberes se estás acima ou abaixo da linha.

O que deves exigir — os 5 itens
Estes 5 não dependem de lei nova. São as condições que podes impor na adesão à plataforma. Quando a relação é de trabalho, é a Inspecção-Geral do Trabalho que as avalia:
- Contrato escrito que diga o regime: prestador ou trabalhador — e o que muda em cada um. Sem contrato, não há base para cobrar nada.
- Comissão por escrito — a percentagem, por tipo de serviço. É a variável que mais muda o ganho líquido, e é a que menos está escrita.
- Os critérios de bloqueio — quantas avaliações, que conduta, o que leva a app a retirar-te as tarefas, e como recorres. O bloqueio arbitrário sem canal de recurso é o que mais corrói o ganho.
- Equipamento e seguro — quem fornece a mota, o telemóvel e o capacete; e se há cobertura contra acidentes durante o turno. É o item que protege a tua saúde e a tua capacidade de trabalhar.
- Um canal de reclamação com prazo de resposta — o que está por escrito é o que se cobra.

3 perfis de entregador: o que a aritmética diz
Os 3 perfis abaixo são exemplos de planificação, não previsões — os números mudam com a tua zona, a tua app e a tua hora.
Perfil 1 — tempo inteiro, de mota. 8 horas/dia, 12 entregas, 80 MT por entrega: cerca de 21.000 MT brutos/mês. Subtrai o combustível (cerca de 2.500 MT/mês, dependente do preço), a comissão (cerca de 30%, a confirmar na app) e tens o líquido. O líquido é o número que podes planear.
Perfil 2 — a meio do tempo, de bicicleta. 4 horas/dia, 6 entregas, 80 MT: cerca de 10.500 MT brutos/mês, sem combustível — mas com mais paragem para carregar a carga. É o perfil de quem soma o trabalho a uma outra fonte de rendimento.
Perfil 3 — fim de semana e hora ponta. Só trabalhas a hora do almoço e o fim de semana: o ganho por hora é mais alto, mas o mês fecha mais baixo. É o perfil de quem trata a app como segunda renda, não como profissão.
Escolhe o perfil que podes sustentar — e põe as 2 colunas (ganho bruto, custos) antes de começar. É a única coisa previsível: o resto é adivinhação.
O que muda de app para app
As regras não são as mesmas em todas as plataformas. A mesma rua de Maputo tem várias apps de entrega a operar, e cada uma tem a sua comissão, o seu horário e o seu regime de bloqueio. O que isto quer dizer: o que te garantem numa app não é garantido na outra.
Por isso, a comparação antes de entrar não é só "qual paga mais por entrega". É "qual tem a comissão menor, o bloqueio menos arbitrário e o equipamento por escrito". Põe os 3 num papel, por app — a escolha muda com as 3 respostas.
O enquadramento legal: o que vale hoje
Regra que vale hoje: a presunção da Lei do Trabalho 13/2023. Se a app dita o horário, fornece o equipamento e não te deixa recusar trabalho, a relação é de trabalho. Nesse caso, os direitos do trabalhador (piso, férias, seguro) aplicam-se, quer a app o reconheça ou não. O guia da Lei 13/2023 explica o teste dos factos.
Em paralelo, a revisão pontual da lei que está a debater a protecção dos trabalhadores de plataformas está em curso no governo — está em debate, não aprovada. O artigo do Guia sobre plataformas digitais cobre os 4 pontos em discussão. É o que vai encaixar a tua relação, quando chegar.
Antes de te juntares a uma app: o checklist
- Lê a comissão por tipo de serviço — é a variável que mais corrói o ganho, e a que menos está escrita.
- Equipamento — quem fornece a mota, o capacete e o telemóvel; e se há seguro contra acidentes durante o turno.
- Os critérios de bloqueio — o que te tira as tarefas, e como recorres.
- Confere a reputação da plataforma nas lojas de apps — as avaliações dos outros entregadores são o mais próximo de um número real de ganho.
- Planifica as horas — com o ganho por tarefa, as horas é que definem o mês; não há piso.
Cria o teu perfil grátis no Inademy — os avisos de novas vagas chegam por email e WhatsApp. E se a via é a contratação com contrato, o piso do sector está na tabela de 19 valores; o CV do Guia é o documento de base.
Em resumo: o que fazer hoje
3 passos antes de começares. Faz os 3 hoje, não amanhã.
- Os teus números — horas, entregas, zona. Escreve-os e não planifiques em cima do anúncio da Yango.
- Os 5 itens por escrito — contrato, comissão, bloqueio, equipamento e canal de reclamação, antes da primeira entrega. O que está por escrito é o que se cobra.
- O sector formal — se o objectivo é um contrato, olha o teu sector na tabela de 19 valores e prepara o CV: a experiência de entregador conta na logística e transporte, e as vagas formalizadas aparecem no Inademy.
Perguntas frequentes
1. O "até 21.000 MT/mês" é garantido?
Não. É o anúncio de recrutamento da Yango — um potencial, não um piso. O ganho real depende das horas, da zona, da procura e da comissão. Não planifiques em cima do anúncio.
2. Posso usar a minha bicicleta?
Podes, se a plataforma aceitar. O custo muda (combustível, manutenção, esforço físico) e a capacidade de carga por hora limita o volume de pedidos. A decisão é tua, com as contas postas em 2 colunas.
3. Quem é que paga o capacete?
Depende das regras da plataforma e do contrato. É o item que deves exigir por escrito — quem fornece o equipamento e o seguro contra acidentes durante o turno. Se não estiver escrito, não existe.
4. E se tiver um acidente na entrega?
Depende do enquadramento: se a relação é de trabalho, o seguro contra acidentes de trabalho é o que vale; se é de prestação de serviços, é o contrato que decide. É exactamente isto que a revisão em curso está a tentar clarificar — e o item que deves exigir por escrito já.
5. O trabalho de entregador conta para um emprego formal depois?
Conta como experiência no sector de logística e transporte — e a Inspecção-Geral do Trabalho enquadra a relação nos factos. O perfil activo no Inademy é o ponto de ligação: as vagas formalizadas do sector aparecem lá, e os avisos chegam por email e WhatsApp.
6. E se a app recusar a comissão por escrito?
A recusa do item por escrito não anula o direito — o que muda é a prova. Se a relação é de trabalho (pelos factos), a Inspecção-Geral do Trabalho avalia a relação independentemente do que a app quer escrever no contrato.
O que a recusa muda é o custo de provar o que foi acordado na adesão. Por isso, tudo o que está por escrito é o que se cobra mais depressa — e é também o que vale mais na altura de provar uma comissão.
Fontes
Yango MZ (2026) — página de motoristas/entregadores, anúncio de ganho de até 21.000 MT/mês; Lei do Trabalho 13/2023 (presunção de relação de trabalho); MZNews (27 de Agosto de 2026) — revisão pontual da Lei do Trabalho em debate no governo; Conselho de Ministros (28 de Abril de 2026) — tabela de 19 salários mínimos por sector, em vigor desde 1 de Abril de 2026.

